10.6.06

Grande Otelo, Begotten, a Lei de Murphy, David Lynch & Copa do Mundo

Os nossos espectadores do dia 10 de junho tiveram uma grande surpresa; se esta foi agradável ou desagradável, isso é muito subjetivo. Acontece que de última hora tivemos um pequeno problema técnico com o filme "Begotten" e este não pôde ser exibido. Na tentativa de aliviar a mancada, colocamos em seu lugar o "The Short Films of David Lynch", compilação de todos os curtas do diretor de "Eraserhead" e "Veludo Azul", com comentários do próprio: tudo legendado em português! Quem viu, viu. Sobre o "Begotten", pedimos mil desculpas e queremos deixar bem claro que vamos providenciar uma nova cópia, que será exibida em nossa próxima sessão. E quando isso ocorrerá? Resposta: em agosto, mais precisamente dia 19. Devido aos jogos da Copa do Mundo, ficaremos parados durante esse período, mas voltaremos com toda a força em breve. Enquanto isso, aguardem ansiosamente as preciosidades que estão por vir: "A Curtição do Avacalho" (novo longa de Petter Baierstof), "Desperate Living" (clássico de John Waters, o mesmo demente que dirigiu "Pink Flamingos), alguns filmes da fase 60 de Jean-Luc Godard e um pequeno ciclo de clássicos do cinema noir. Aguardamos vocês!

4.6.06

El Topo / Begotten - trechos em vídeo

Conforme tínhamos prometido, aqui estão os vídeos das obras que serão apresentadas dia 10 de junho. Só há um porém: como o programa que usamos para tirar trechos de filmes anda dando problemas, tivemos que nos virar e colocar os vídeos que circulam pela internet mesmo, sendo que estes não estão exatamente do jeito que gostaríamos. Mas dá pra ter uma noção do que aguardam vocês, hehehehe.

EL TOPO, de Alejandro Jodorowsky | México, 1970, 125 min.

O confronto entre El Topo e um dos mestres do deserto.


BEGOTTEN, de Elias Merhige | EUA, 1991, 80 min.

O suicídio de Deus e o nascimento da Mãe-Terra.
IMPORTANTE: Essa PÉSSIMA trilha sonora metal não faz parte do filme; porém, foi o único vídeo que encontramos na Internet. IMPLORAMOS que desconsiderem a música. :)

1.6.06

Surrealismo em dose dupla no Grande Otelo: se você é profundo, estes filmes são profundos; se você é superficial, estes filmes são superficiais.

Quem aparecer pelo Grande Otelo no dia 10 de junho terá a oportunidade única de conferir duas obscuras e pouco vistas pérolas da sétima arte: "El Topo", de Alejandro Jodorowsky, e "Begotten", de Elias Merhige. Embora na aparência sejam obras radicalmente distintas, o espectador arguto encontrará inúmeras semelhanças entre as duas: ambas são ultra-violentas, ousadas em forma e conteúdo, abordam o misticismo e religiosidade sem qualquer tipo de dogma (mas nunca de maneira desrespeitosa, por mais chocantes que sejam as imagens), apresentam alto teor filosófico e fogem de todas as convenções do cinema comercial. Ao término dos filmes, alguns ficarão com raiva, outros sentirão nojo ou repulsa, uma boa parte se sentirá confusa e outros tantos ficarão perplexos e maravilhados. Uma coisa é certa: sendo obras que não subestimam a inteligência do espectador, "El Topo" e "Begotten" não deixam ninguém indiferente. Parafraseando Jodorowsky, podemos afirmar com toda certeza: se você é uma pessoa profunda, esta sessão será profunda; se você é uma pessoa superficial, esta sessão será superficial.

OS FILMES:
El Topo (idem, 125 min, México, 1970) | Dirigido por Alejandro Jodorowsky
Sinopse:
O misterioso pistoleiro El Topo e seu filho pequeno peregrinam pelo deserto tentando esquecer o passado. No caminho, se deparam com estranhos obstáculos - dentre outras adversidades, presenciam o massacre dos habitantes de um vilarejo, encontram maníacos sexuais, enfrentam mestres cujas fraquezas simbolizam o comportamento humano e passam a ser idolatrados por um clã de pessoas aleijadas e disformes.
A carga simbólica deste filme é tão grande que seu diretor chegou a declarar: "Se você é profundo, 'El Topo' é profundo; se você é superficial, 'El Topo' é superficial". Um originalíssimo faroeste surrealista que mistura misticismo, violência extrema, filosofia zen-budista, espiritualismo, parábolas bíblicas, sexo e psicanálise. Tente imaginar um híbrido de Sergio Leone, Glauber Rocha, Luis Buñuel e Federico Fellini - o resultado será mais ou menos parecido com este clássico. Uma pequena curiosidade - após assistirem "El Topo", John Lennon e Yoko Ono ficaram tão impressionados que passaram a organizar sessões apenas para exibí-lo.

Elenco:
Alejandro Jodorowsky, Brontis Jodorowsky, Mara Lorenzo, Robert John, David Silva, José Legaretta.
Fotos:

Begotten (idem, 80 min, EUA, 1991)
| Dirigido por Elias Merhige
Sinopse: Deus comete suicídio retalhando seu próprio corpo com uma navalha; de seu sangue e vísceras, emerge a Mãe Terra, que por sua vez dá à luz um ser inquieto e convulsivo. A partir de então, os dois se tornam vítimas da ignorância e selvageria da espécie humana. Inteiramente fotografado em preto e branco e sem nenhum diálogo, "Begotten" retoma a estética das vanguardas cinematográficas do cinema mudo - especialmente o surrealismo e o expressionismo alemão - e fornece a elas uma nova roupagem. Trata-se de uma experiência inesquecível, brutal, sombria e extremamente perturbadora. Uma estranha metáfora sobre os mistérios do universo, o surgimento da vida, as relações humanas e a crença num ser superior. Filmado em 1989 e lançado somente em 1991, o filme foi considerado pela crítica especializada como um dos mais radicais e inovadores da década de 90, sendo muitas vezes definido como uma espécie de "splatter metafísico".
Elenco: Brian Salzberg, Donna Dempsey, Stephen Charles Berry, James Gandia, Daniel Harkins.
Fotos:

SOBRE OS DIRETORES:

Cineasta, roteirista de quadrinhos, mímico, teatrólogo, dramaturgo, mestre em ocultismo, tarólogo, escritor, ator, pintor, filósofo e performer de happenings: como bem se vê, o genial Alejandro Jodorowsky é o protótipo do artista multimídia. Nascido no Chile em 1929, descendente de russos e argentinos, emigrou para o México na juventude. Nesse período, conheceu o dramaturgo espanhol Fernando Arrabal, e junto com ele criou o Movimento Pânico, defendendo uma arte 100% visceral. Sua efetiva estréia atrás das câmeras se deu em 1968, com o clássico "Fando y Lis", sobre a jornada de um rapaz e sua amante paralítica rumo á cidade mítica de Tar. Baseado na peça honônima de Arrabal, o filme conferiu a Jodorowsky o status de ídolo do cinema surrealista. Em 1970, lança "El Topo", que exibiremos dia 10 de junho e é provavelmente sua obra mais conhecida: um dos primeiros midnight movies de que se tem notícia, é - como tudo que leva a assinatura de Jodo - ao mesmo tempo lírico e grotesco, sensível e brutal. O realismo está presente do primeiro ao último fotograma: os aleijados e portadores de deformações realmente tinham esse problema, os animais que aparecem mortos no decorrer da história foram abatidos pelo próprio diretor, nas cenas de sexo - embora nenhuma seja explícita - o elenco realmente transava, e assim por diante. "El Topo" foi sucedido por "A Montanha Sagrada", igualmente não-convencional e para muitos seu melhor e mais complexo trabalho: trata-se de nada menos que uma fábula onde um sósia de Jesus Cristo e seus seguidores saem em busca do segredo da imortalidade. Dentre as muitas cenas inesquecíveis desta obra-prima, destacam-se a procissão de bezerros crucificados e a invasão do México por uma infinidade de sapos. Após uma experiência infeliz - "Tusk", filme sobre a vida de um elefante indiano - e alguns anos de inatividade, Jodorowsky finalmente volta a dirigir em 1989. "Santa Sangre", produzido por ninguém menos que Claudio Argento - irmão de Dario Argento, o rei dos giallos - contava a sinistra história de uma família circense. Um ano depois, em 1990, roda na Inglaterra seu último e mais comercial filme: "The Rainbow Thief", que decepcionou seus fãs mais radicais ao apresentar uma trama mais acessível e com menos simbolismos religiosos. Merece destaque especial na sua carreira a já lendária adaptação de "Duna", o cultuado livro de ficção-científica que futuramente seria filmado por David Lynch: a direção de arte ficaria a cargo do quadrinista Moebius; a trilha sonora seria composta pelo Pink Floyd; Gloria Swanson, Lillian Gish e Salvador Dalí encabeçariam o elenco e o filme teria 16 horas de duração. Infelizmente, quando perceberam a extensão e a megalomania do projeto, os produtores boicotaram Jodorowsky e a idéia acabou nunca saindo do papel. Embora pouco conhecida no Brasil, sua obra merece ser conferida. De uma sofisticação e complexidade sem precedentes, as criações deste sul-americano são mais influentes do que se imagina: até mesmo séries hollywoodianas como "Star Wars" e "Alien" utilizam conceitos criados por Jodorowsky em seus livros, filmes, peças de teatro e histórias em quadrinhos. Neste ano de 2006, o artista multimídia foi condecorado no Chile e homenageado no Festival de Cannes.

Nascido em Nova Iorque no ano de 1964, o norte-americano Edmund Elias Merhige se formou em Direção na Escola de Cinema da Suny Purchase. Tornou-se conhecido no fim da década de 80, ao lançar seu primeiro longa: "Begotten" foi baseado nas performances do grupo Theatreofmaterial (fundado pelo cineasta); sobre seu conteúdo, Merhige declarou - "Abaixo das imagens descartáveis da vida cotidiana, banal, há apenas o tribal, o indelével e o atemporal. Estas imagens são criadas. A existência é cíclica. Nascimento cria a vida, vida cria morte, morte cria renascimento". Tecnicamente impressionante, o filme apresenta um efeito de envelhecimento artificial obtido através do uso de inúmeros filtros. Estima-se que cada minuto de imagem levou um tratamento de cerca de 8 horas até alcançar o visual definitivo. Mais palavras do diretor: "Eu não queria que a película parecesse datar dos anos 20, nem mesmo do século XIX, mas, sim, como se fosse da época de Cristo, como se fosse um Manuscrito do Mar Morto cinemático enterrado nas areias". "Begotten" é tão difícil e experimental que por vários anos teve sua exibição limitada a alguns poucos festivais de cinema. Como ninguém se arriscava a bancar seus projetos seguintes - dada a total ausência de compromissos comerciais de sua estréia - Merhige prosseguiu dando aulas de estética em universidades, participando de happenings, dirigindo peças de teatros e produzindo videoclipes. Sua sorte mudou por completo quando Nicholas Cage - o astro de Hollywood - assistiu a "Begotten". Embasbacado com o que viu, o ator resolveu financiar o segundo filme do cineasta: surge então "A Sombra do Vampiro", um interessantíssimo exercício de metalinguagem no qual se levanta a hipótese de Murnau ter filmado seu clássico "Nosferatu" contando com um vampiro de verdade no elenco. Seu terceiro e mais recente filme, "Suspect Zero" (2004), trata de um serial killer cujas vítimas são sempre outros assassinos.

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ONDE Espaço Cultural Grande Otelo - Rua Demetri Sansoud de Lavoud, 100 - (atrás da prefeitura) - Vila Campesina - Osasco - SP - Fone 3699 5618 QUANDO 10 de junho
QUANTO Entrada gratuita. Lugares disponíveis a partir de 12:30, no mesmo dia do evento. FAIXA ETÁRIA Filmes recomendados para maiores de 16 anos HORÁRIOS 13:30 - El Topo (idem) | 15:35 - Begotten (idem)

AGUARDEM, AINDA ESSA SEMANA: Trechos em vídeo dos filmes "EL TOPO" e "BEGOTTEN".

14.5.06

Cineclube Grande Otelo apresenta: Dois cult-movies do diretor JIM JARMUSCH!

A estréia do Cineclube Grande Otelo foi um sucesso. No dia 6 de maio cerca de 40 pessoas conferiram "Odishon" (de Takashi Miike), "Rubber Johnny" (de Chris Cunningham) e "Eraserhead", de David Lynch: levando em conta a difícil assimilação destas três obras - voltadas para públicos muito específicos - e que foi nossa primeira vez organizando esse tipo de evento, o resultado foi extremamente satisfatório.
Pois bem, quem estava aguardando ansiosamente a próxima sessão - e também aqueles que adoram o bom cinema mas ainda não conhecem nosso projeto - já podem marcar na agenda o dia 27 de maio (sábado), no qual se realizará nossa segunda empreitada. Nessa data, exibiremos dois dos mais divertidos clássicos do cineasta cult norte-americano Jim Jarmusch: "Down by Law" (1986) e "Mystery Train" (1989), sendo o primeiro inédito no mercado de vídeo brasileiro.
Abaixo, seguem sinopses, biografia do diretor, fotos, vídeos dos filmes, horários e endereço.

OS FILMES:
Daunbailó (Down by Law, 107 min, EUA, 1986) | Dirigido por Jim Jarmusch
Sinopse: Zack é um DJ desempregado que acaba sendo abandonado pela esposa por levar a vida de maneira extremamente irresponsável, e Jack um cafetão que está sempre sob a mira de seus concorrentes: ambos vão presos por crimes que não cometeram. Na prisão, acabam conhecendo Roberto, um italiano excêntrico que matou um homem em legítima defesa e mal sabe falar inglês. Apesar de não conhecer praticamente nada do idioma norte-americano, Roberto é o único que sabe como escapar daquele lugar. A partir de então, a convivência entre os três é pontuada por momentos ora cômicos, ora tensos, dando início a uma longa jornada de auto-descoberta.
Elenco: Tom Waits, John Lurie, Roberto Benigni, Nicoletta Braschi, Ellen Barkin.
Fotos:
Vídeo: "I screamma, you screamma, we are all screamma, for icecreamma!" ("Eu grito, você grita, todos nós gritamos por um sorvete!")



Trem Mistério (Mystery Train, 110 min, EUA, 1989) | Dirigido por Jim Jarmusch
Sinopse: Uma narrativa alinear envolvendo três histórias inusitadas, cujos personagens se cruzam num hotel decadente de Memphis, terra natal de Elvis Presley (figura constante em todo o filme). No primeiro episódio - "Longe de Yokohama" - um casal de japoneses obcecados pela cultura americana e fanáticos por rock da década de 50 vai aos EUA conhecer os estúdios da Sun Records. No segundo - "Um Fantasma" - mulher italiana vem a Memphis liberar o corpo do marido, que morrera ali poucos dias antes. Após ser perseguida por um bando de delinquentes, se hospeda num hotel assombrado pelo fantasma de Elvis Presley. No terceiro - "Perdidos no Espaço" - marido ciumento e seus amigos ficam bêbados e se metem numa enrascada ao matar acidentalmente o balconista de uma loja de conveniência. O nome do filme vem de uma canção honônima do Rei.
Elenco: Masatoshi Nagase, Youki Kudoh, Nicoletta Braschi, Steve Buscemi, Joe Strummer, Screaming Jay Hawkins, Cinqué Lee, Rufus Thomas.
Fotos:
Vídeo: O encontro da viúva com o fantasma do Rei, ao som de "Blue Moon".


Sobre o diretor: Jim Jarmusch nasceu no ano de 1953 em Ohio, mas estudou em Nova Iorque, e foi lá que se tornou célebre. Antes de seguir a carreira de diretor, trabalhou em inúmeras outras áreas ligadas ao cinema - foi ator, assistente de direção de Wim Wenders e Nicholas Ray, sonoplasta, fotógrafo, etc. Formado em literatura e cinema, dirigiu seu primeiro longa em 1980, como trabalho de conclusão da faculdade: "Permanent Vacation". A consagração veio em 1984, com seu segundo trabalho, o cultuado "Estranhos no Paraíso", sobre três amigos que tentam escapar do tédio a qualquer custo; dentre outras laureações, o filme levou o prêmio de melhor diretor estreante no Festival de Cannes. Em seguida, realizou os dois longas que apresentamos dia 27 no Grande Otelo: "Daunbailó" e "Trem Mistério", o primeiro lindamente fotografado em preto e branco e o último um belo tributo à obra de Elvis Presley. Na sequência vieram "Uma Noite Sobre a Terra", composto por vários episódios totalmente passados dentro de táxis; "Dead Man", um estranho e onírico faroeste estrelado por Johnny Depp; "Year of The Horse", documentário sobre a carreira do músico Neil Young; "Ghost Dog", sobre as relações de um samurai negro com a máfia italiana; a coletânia de curtas "Coffee and Cigarettes"; e por último o elogiado "Flores Partidas", de 2005, no qual Bill Murray interpreta um solteirão que sai pelas estradas americanas em busca da mãe de seu filho.
Dentre as inúmeras marcas registradas do estilo de Jarmusch, destacam-se uma visão sempre cética do american way of life, o confronto entre diferentes culturas, a questão da incomunicabilidade, seu humor extremamente sutil e refinado, bem como a presença constante da música como elemento fundamental da trama (não raro seus filmes são estrelados por músicos: "Down by Law" tem no elenco o cantor Tom Waits e o jazzista John Lurie, e "Mystery Train" conta com pontas de Screaming Jay Hawkins, Rufus Thomas e Joe Strummer - o lendário vocalista do Clash).
É nítida sua influência em obras como "Encontros e Desencontros" (Sofia Coppola), "O Balconista" (Kevin Smith), "Felizes Juntos" (Wong Kar-Wai), "Ariel" (Aki Kaurismaki), "Cortina de Fumaça" (Wayne Wang & Paul Auster), "Pulp Fiction" (Quentin Tarantino) e "Antes do Pôr-do-Sol" (Richard Linklater).

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ONDE Espaço Cultural Grande Otelo - Rua Demetri Sansoud de Lavoud, 100 - (atrás da prefeitura) - Vila Campesina - Osasco - SP - Fone 3699 5618 QUANDO 27 de maio QUANTO Entrada gratuita. Lugares disponíveis a partir de 12:30, no mesmo dia do evento. FAIXA ETÁRIA Filmes recomendados para maiores de 16 anos HORÁRIOS 13:30 - Trem Mistério (Mystery Train) | 15:35 - Daunbailó (idem)